Em roda viva e à procura do Sol
Meia-hora antes do concerto dos Musicians of the Nile ainda não sabia se conseguiria sair do emprego a tempo de os ver. Valeu a persistência e a ajuda.
Foi uma lufa-lufa aquelas duas horas até ao início da sessão, às 22h. Uma corrida até ao carro. Uma fangiozice do parque na Baixa até ao subterrâneo da Casa da Música. Dois truques novaiorquinos já lá dentro, para apanhar o elevador cheio e passar à frente na fila dos bilhetes (o que é chato porque depois a pessoa que engrupimos fica ao nosso lado no espectáculo). Escadas subidas de duas em duas.
A arfar sentei-me (assisti à chegada da menina que tinha ultrapassado). A sala principal, a Suggia, estava cheia. Seriam quê 800, mil pessoas? Não interessa. Depois da “roda viva”, estava lá — mesmo que na fila Y.
Aos poucos fui acalmando. Aos muitos fui sendo levado.
Levitei — pelo menos presumo que sim, nessa altura estava com os olhos fechados. Encontrei o deserto e atravessei-o. Descobri rodopios dançáveis e imaginei festas, quase ciganas, em sonoridades estranhamente próximas das dos Balcãs (isto anda tudo ligado). Bati palmas como os andaluzes, e como os tugas também, descompassado e histérico. Deixei-me conduzir como se dançasse sem saber e calquei, o chão, como se dançasse sem saber, apenas acompanhando o ritmo.
E procurei o Sol, na música destes guias que vieram do Oriente, mas talvez ainda demasiado em “roda viva” comigo mesmo e com a minha etérea lufa-lufa do rame-rame do dia-a-dia daquele dia que acabava, apenas encontrei o Sol na fotografia do Pedro Tavares, caríssimo camarada de trabalho.
Musicos do Nilo Foto de Pedro Tavares, originally uploaded by fpm.
Filed under: Música | 4 Comments

Pois… faltei, com muita pena minha.
Escusavas de ter escrito este post, sabes?
[off topic]
É só comigo, ou desapareceu a barra e apareceu um “tchic!” de cada vez que se recarrega?
Bom post camarada. É nestes momentos que eu quase confirmo fazer todo o sentido que muitas das técnicas de escrita dos blogues migrem naturalmente para certas secções dos jornais. Não sei se isto se liga com as tentativas de introduzir o jornalismo literário, à la New Yorker, nem sei que barreiras devem ser colocadas para que outras secções do mesmo jornal se mantenham do lado de lá dessa fina fronteira, respirando a “objectividade” tradicional com que os jornais insistem junto dos leitores, embora a frase que da outra vez citavas faça mais sentido cada dia que passa: “Editor é uma pessoa empregada por um jornal, cuja função é separar o trigo do joio, e certificar-se que o joio é publicado.” (Elbert Hubbard). Tem bom joio e cavalga o trigo com denodo…