“A entrevista pode fazer-se… agora” - foi uma correria para encontrar gravador, microfone e para pensar em inglês. As perguntas foram surgindo naturalmente e Justin estava preso no trânsito. Por isso correu muito bem.
Como é possível os New Model Army estarem tanto tempo sem tocar em Portugal?
Não sei se serei a pessoa indicada para o responder, mas creio que deve ter algo a ver com o facto da oportunidade, de azar. Somos aquele tipo de grupo que tem seguidores, no sentido de culto, pelo mundo inteiro, incluindo Portugal, mas não aparecemos muito na MTV, nem nos media tradicionais, e isso leva a que os promotores de concertos nem saibam que existimos!
É uma questão de oportunidade, porque se nos convidam vamos.
E esse culto talvez faça com que não apareçam tanto nos media tradicionais.
As pessoas dos meios tradicionais, os jornalistas de rock, não sabem onde nos encaixar, não sabem onde pertencemos dentro das etiquetas que se dá às bandas. Claro que embora crie um problema no relacionamento com esses media, acaba por ser excelente, artisticamente. Graças a isso, desde o início que nos sentimos completamente à vontade para fazer o que quiséssemos em termos musicais. É uma grande liberdade.
Mesmo assim, vocês têm uma enorme popularidade na Alemanha, na Holanda e nos Estados Unidos (além da Grã-Bretanha, claro), ou seja, são uma banda de culto, mas o culto é enorme.
Sim, isso acontece, mas não foi algo que planeássemos. Simplesmente sempre quisemos ser livres de fazer o que queríamos. Nunca nos preocupamos com o aspecto comercial.
De qualquer das formas, houve discos vossos, como o “Ghost of Cain” que teve um tremendo sucesso [em Portugal chegou a estar no top].
É interessante: fomos populares em diferentes países em alturas diferentes, há sucessos diferentes conforme os países. “Ghost of Cain” [1986] foi sem dúvida um dos nossos discos mais vendidos, penso que só ultrapassado por “Thunder & Consolation” [1989], embora o “The Love of Hopeless Causes” e “War” também tenham tido sucesso noutras paragens.
Tais como?
Recentemente descobrimos que éramos queridos em partes do mundo que não contávamos. Turquia, por exemplo. Polónia… especialmente esses dois.

Mas falavas da liberdade de criação, não condicionada pelos aspectos comerciais…
Sim. Parece-me que temos sempre coisas para escrever, que temos sempre novas ideias musicais dentro do grupo, o que significa quase sempre um transformar da energia criativa, uma mudança. Estamos continuamente em movimento, desenvolvendo ideias novas. Ainda agora, que estamos a trabalhar no novo álbum, mantemos aquela sensação excelente de uma livre… de estarmos livres para fazer o que quisermos.
E o que é que têm previsto para o concerto deste sábado. Será centrado no último disco de originais, o “Carnival”, ou terá alguns daqueles hinos que compuseram ao longo destas duas décadas?
É um bocado uma mistura de ambas as coisas. Não é preparado, é um bocado ao acaso. Escolhemos o que vamos tocar uns quinze minutos antes do concerto. Será uma mistura entre coisas novas e velhas.
E isso depende de quê? Tendo em conta a vossa relação próxima com o público dos concertos, as músicas dependem da audiência?
Bastante. Não podemos tocar as músicas todas, claro. De qualquer das formas não me parece que o mais interessante seja exactamente “o que” vamos tocar mas a forma “como” tocámos. É um sentimento que criámos ou sentimos em palco.
Que nasce dessa espécie de comunhão com o público?
Sim, conseguimos tê-la.
As questões sociais e políticas que vocês levantam e colocam, não apenas nas canções mas sobretudo na atitude do grupo, poderá ser uma razão para estarem arredados dos media “mainstream”?
Talvez. Houve uma altura em que a política e a música andavam mais próximas do que actualmente — agora as pessoas dizem “Oh! Não deves falar sobre isso…”. Não me interessa o que as pessoas pensam sobre o que nós devemos ou não cantar, há muitas coisas que falamos nas nossas músicas e que, posteriormente, acabam por ser assunto dos media tradicionais. Aí, já estamos noutra.
Obviamente que o mundo muda, mudou imenso nos últimos 25 anos, e as coisas sobre o que estamos a escrever agora não são as mesmas de há dez anos. Escrevemos o que é interessante para nós em determinado momento.
Portanto, a liberdade que falavas em termos de composição musical, também se reflecte nas letras?
Sim, sem dúvida. Nos Anos 80, as pessoas pensavam que éramos uma banda “de esquerdas” — o que acaba por ser verdade — mas há músicas como “Vengeance” ou “My People” que não são, de maneira nenhuma, “de esquerdas”.
Ainda no Verão do ano passado, havia grande emoção em relação ao que se passa em África, era altura do “Live 8″. Em “Carnival” [2005] há uma música chamada “Red Earth” que é bastante dura em relação a África, que não é definitivamente “politicamente correcta”.
E não pertencemos a nenhum movimento ou grupo político, claro.
Nos Anos 80 não tiveram preconceitos em ir buscar as tradições, sobretudo da Grã-Bretanha, mas também de uma parte da Europa. A tradição celta ainda é para vocês uma referência?
Vivemos num mundo muito vasto e temos a oportunidade de ir a tantos sítios e perceber que além de vasto é muitíssimo interessante, especialmente agora quando há um grande movimento de pessoas em todo o mundo, de todo o lado para todo o lado, provocando um choque de ideias. Isto é muitíssimo interessante para nós.
E a vossa cultura céltica acaba por ficar a falar com os vossos fãs turcos…
Sim. Sim, sim. A ideia de pureza cultural, da pureza tradicional Celta da Irlanda, existe, mas está também muito influenciada pela cultura marroquina. A costa Oeste da Irlanda, tal como Portugal, é muito influenciada por essa cultura. E penso que essa é uma das diferenças que noto entre Portugal e Espanha, é que vocês têm uma maior abertura para o vosso passado árabe do que Espanha.
Em “Carnival” vocês focam uma questão do momento que é a imigração. Tema da semana em Inglaterra, não?
Sem dúvida. É a questão do momento. Falamos do “World Wide Movement of People” [traduzível por "movimento de pessoas por todo o mundo", numa referência à globalização e à internet, a World Wide Web] porque no Ocidente temos como certo que podemos ir para onde quisermos, mas a questão é que há pessoas, de fora, que não o podem fazer, não podem ir para onde quiserem. Claro que a vinda de pessoas de África, sobretudo através da Europa do Sul, é o assunto do momento.
Acreditas que, como na vossa música “Higher Wall”, estaremos a meio caminho de construir muros cada vez mais altos no Ocidente?
Parece inevitável o desejo de o criar. E é também inevitável que tenhamos consciência que esse muro mais alto é inútil. Não se pode construir um muro em torno da Europa e disparar sobre as pessoas que querem cá entrar. Algo diferente terá de acontecer, teremos de chegar a outra solução.
A arte — como plano de cruzamento de culturas de que falavas antes — pode ajudar os políticos a encontrar a solução?
Talvez, não sei. Se houver tempo para pensar nas coisas, como nós, artistas, temos, é possível. O problema é que a maioria das pessoas no seu dia-a-dia e os políticos ocidentais, em particular, não parecem ter tempo para pensar nas coisas, simplesmente reagem às situações. Eles não têm tempo para olhar através da janela do autocarro e sonhar acordados. E nós temos, o que é um privilégio. E é talvez por isso que os artistas pensem… melhor do que os políticos.






2 respostas so far ↓
[ cjt ] // 28 Outubro 2006 às 30308 pm
My People Right Or Wrong!
Até logo!
L - ; // 12 Dezembro 2006 às 20212 pm
Só achei isto agora, you Lusitan Strange Brotherhood, parabéns!
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