Entrevista com Carlos Latuff
Mal soube do caso das ameaças veladas sobre o cartoonista Carlos Latuff tentei entrar em contacto com ele, para lhe mostrar a minha solidariedade – pois para mim os cartoonistas são jornalistas – e para pedir alguns esclarecimentos sobre o caso. Desde logo ele mostrou-se bastante disponível, embora com os cuidados compreensíveis numa abordagem via correio electrónico. As perguntas estão a negrito e as respostas em itálico.
Como soube do que se passou no site?
Faço sempre pesquisas rotineiras em motores de busca na Internet para saber o que andam a dizer a respeito do meu trabalho. Daí descobri essa página em hebraico relacionada aos partidários do Likud e pedi a uma amiga israelita, de Haifa, que fizesse a tradução.
Tentou contactar o Likud, exigindo informação ou a retirada das ameaças? Pediu algum apoio junto do governo brasileiro, tendo em conta a ameaça velada no que está ali escrito?
Creio que a via diplomática nestes casos é inútil. Durante os bombardeios israelitas contra o Líbano, onde foram mortos brasileiros que viviam lá (incluindo uma família inteira), o governo do Brasil nem sequer veio a público para repreender veementemente esse acto de agressão de IsraHell. Se eu vivesse na Venezuela, aí sim, poderia esperar uma reacção mais concreta, já que Hugo Chavez é um dos raríssimos líderes no Ocidente com coragem para criticar os crimes israelitas.
Quanto ao Likud, seria igualmente inútil qualquer contacto. Eles alegariam que, apesar de associada directamente ao partido, a página não é oficial. Mas, certamente, dado ao seu conteúdo e ao histórico do partido, está de acordo com seu pensamento fascistóide.
Já havia tido algum contacto pessoal com este tipo de ameaças, tendo em conta o carácter político e por vezes agressivo dos seus cartoons?
Na maior parte das vezes, esses ataques provêem de direitistas, que tem páginas ou blogues, e que passam o tempo farejando a Internet como perdigueiros a procura de qualquer coisa que soe minimamente como crítica a IsraHell e aos Estados Unidos. Mas agora é a primeira vez que um chamamento para me silenciar a mim e ao meu trabalho foi feito numa página de origem claramente partidária.
Não consegui contactar o Likud israelita, mas enviei um mail para o Likud na Holanda e a resposta foi essa: “It looks as if the site is hijacked, we have no more information.”. Acha possível?
Não é verdade. O artigo inclusive estava na página principal do website. Não é preciso lançar mão de “hackers” para invadir páginas da direita israelitas e “plantar” artigos dessa natureza lá. O que foi dito neste site não é nada diferente do que sempre é dito por aqueles que defendem cegamente as políticas genocidas de IsraHell para com os palestinos. Ariel Sharon, quando ainda pertencia ao Likud, fez ameaças de morte públicas ao então líder da Autoridade Palestina Yasser Arafat. Aliás, IsraHell tem fama de eliminação de “inimigos” fora de seu território. Para esse serviço sujo conta com a Mossad.
Pelo que percebi na Wikipédia, você começou a trabalhar sobre o problema do Médio Oriente quando visitou a região. Antes disso já tinha desenhado essa realidade? Com o que é que se deparou lá?
Até 1999, data de minha viagem aos Territórios Ocupados, não tinha ainda um foco preciso a cerca do que se passava por aquelas bandas. Sabia sobre a opressão do povo palestino, mas não tinha qualquer experiência prática, concreta. Após um “tour” pela Cisjordânia e presenciar um povo inteiro vivendo debaixo da bota de IsraHell, sem liberdade sequer para se locomover dentro de seu próprio país, sofrendo todo tipo de humilhação e brutalidade, não tive outra alternativa senão apoiar a causa palestina de libertação.
Não sendo importante para o post mas por curiosidade pessoal, qual é a sua posição no caso dos cartuns dinamarqueses?
Apesar de ser cartunista e defender a liberdade de expressão, acho que para tudo na vida existe o bom senso. O que vimos no incidente dinamarquês, longe de ser meramente um exercício de liberdade, foi uma demonização do Islão, processo esse que foi reforçado no Ocidente após os ataques de 11 de Setembro. A reacção violenta por parte dos muçulmanos foi na verdade resultado de uma longa campanha de difamação promovida por sectores reaccionários. Algo parecido com as caricaturas anti-semitas europeias no século XIX e XX. Se cartoons demonizando o Islão são apenas expressões de bom humor, devemos supor então que as caricaturas anti-semitas tinham o mesmo propósito.
Filed under: Futuro | 7 Comments
Acho inacreditável a resposta à última questão…
I received an email in Portuguese about this, tracked down the name on there and wound up here. I wish this was also in English so I’d know what the heck is going on. The online translators are a joke and left me more baffled than before.
I don’t see the name here who sent it to me — filinto melo. Is this his blog? I remember him from way back — in fact we linked sites.
Someone please clue me in.
‘brigada
Desculpe! I should have looked closer at the links.. I’m listed there as “BS Report”. So it is you, Filinto. Wow, long time, não é?
I still speak very bad Portuguese, even after living here for over 10 years. Is this now the name of your site? I will put a link up to whatever you want. This is muito fixe :)
Brenda
LATUFF COMANDA!!!!!
Se ele morasse na Venezuela, não teria tanta liberdade para divulgar seus trabalhos em rede. E paralelo às charges dinamarquesas, nada é de tão mau gosto quanto os lixos que esse metido a ativista publica.
Acontece que reagir dando a mesma moeda é contribuir para a manutenção da situação. Se quer realmente fazer alguma mudança, reaja inspirando paz e não ódio. Outra coisa: desculpa, mas isso parece um golpezinho de marketing, se te indigna tanto o que acontece lá, por que não te indigna o que acontece por aqui? Sabia que morrem mais brasileiros por ano do que palestinos ou israelenses?