Diz-lhes assim
- Diz-lhes que não me matem, Justino! Anda, vai dizer-lhes isso. Que por caridade. Diz-lhes assim. Diz-lhes que o façam por caridade.
- Não posso. Há ali um sargento que nem me quer ouvir falar de ti.
- Faz com que te ouça. Usa as tuas manhas e diz-lhe que para sustos já chega. Diz-lhe que o faça pela caridade de Deus.
- Não se trata de sustos. Parece que te vão matar de verdade. Eu já não quero voltar lá.
- Vai outra vez. Só mais uma vez, a ver o que consegues.
- Não. Não tenho vontade de ir. É evidente que sou teu filho. E, se vou muitas vezes ter com eles, acabarão por saber quem sou e pode dar-lhes para me fuzilarem a mim também. É melhor deixar as coisas tal como estão.
- Anda Justino. Diz-lhes que tenham só um bocadinho de lástima de mim. Diz-lhes só isso.
Justino apertou os dentes e moveu a cabeça, dizendo:
- Não.
E continuou a abanar a cabeça durante muito tempo.
Juan Rulfo
conto Diz-lhes que não me matem!
de A planície em chamas
Cavalo de Ferro 2003
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